23 de junho de 2007

Maria Rita

Raúl Indipwo e Milo MacMahon formaram o Duo Ouro Negro no ano de 1956 em Angola. Já com base em Lisboa, desenvolveram até ao falecimento de Milo em 1985 um trabalho prospectivo e pioneiro em Portugal com a música africana que encaravam com rigor, respeito e inventiva. Este caminho foi percorrido ainda por Raúl até ao seu recente desaparecimento. Tenho para mim que a música do Duo Ouro Negro, apesar de ter obtido assinalável sucesso em Portugal e no exterior, sempre foi encarada em alguns meios com nefastos preconceitos de vária ordem. Talvez por isso, discos excelentes como Africaníssimo ou Blackground não são ainda devidamente reconhecidos em todo o seu valor.
Trago aqui hoje o Duo Ouro Negro, porque uma das canções pop que eles mesclavam e intercalavam com a sua abordagem à música africana, transluz muito do ambiente e do espírito do S. João no Porto: Maria Rita.
Diz-me o amigo Décio do Ó, que anima o excelente blog http://duoouronegro.blogspot.com/, e que me forneceu gentilmente a imagem da capa do disco, que Maria Rita é um lançamento de 1969.
Hesitei em colocar neste post a capa, que me parece pouco feliz. Faço-o, porque ela é um testemunho de que o Duo Ouro Negro nem sempre viu o seu trabalho ser veiculado como merecia.
E aqui fica a letra de Maria Rita:

Foi um dia nas Fontainhas
Que a vi falando com umas amigas
Atirei-lhe beijos, elas riram das gracinhas
São coisas próprias das raparigas
E eu voltei, todos os dias a procurei
E soube que ela se chamava Rita
Foi a moça mais bacana que encontrei
E tinha os cabelos presos com uma fita

Maria Rita, Maria Rita
Eu pergunto à multidão, mas ninguém a viu passar
Maria Rita, Maria Rita
Dou uma vela a S. João se a voltar a encontrar

Quando chegou a madrugada
Ninguém sabia de nada
E eu voltei tão triste, tão triste
Que se ela soubesse voltava para me abraçar

Era noite de S. João
Toda a cidade estava iluminada
E toda a gente vinha em folia, em turbilhão
E nessa gente vinha a minha amada
E trazia a amarrar o cabelo negro
A mesma fita da cor do céu
Com a mão atirou-me um beijo
E entre a multidão desapareceu

1 comentário:

Cristina Loureiro dos Santos disse...

Incrível, Alberto! Que mistura de sentimentos! Senti-me simultaneamente jovem e bem cota ;) Passo a explicar: Eu adorava cantar a Maria Rita, quando era miuda, sabes? Tinha até a letra (acho que ainda tenho...)Mas agora que estou a ler o teu post, vejo que o disco é mais antigo do que estou a pensar. Não me lembro de alguma vez ter visto a capa, acreditas? E concordo em absoluto contigo, não é nada, mas nada feliz. Mas a Maria Rita, lembra-me demasiado a minha infância. Eu gosto do Duo Ouro Negro, muito mesmo. Fiquei toda nostálgica, agora lol. Soube-me bem recordar. Obrigada.