27 de março de 2009

Visões do Porto (21)


Foto de Alberto Guimarães

Visão da Rua da Alegria no Porto.

23 de março de 2009

Porto, 1925


Uma miríade de anúncios espalhava-se numa das páginas do Jornal de Notícias de 08/07/1925. Impossível eles não despertarem curiosidade. O que registou o aparelho de filmar com lentes Zeiss que se vendia na Estrela Polar, à Rua Santa Catarina? Ter-se-á conseguido uma cozinheira para a Rua Costa Cabral, 765? Foram os cidadãos vítimas de fraqueza genital devidamente acudidos pelos comprimidos de cloridrato de vohimbina, quimicamente pura do Dr. R. Wollf – Berlim? Quantos seriam os compradores de motos Wanderer 6HP, dois cilindros, cinco velocidades, último modelo? Com que ânsias e medos eram lidos os avisos de partida dos vapores para os destinos da emigração? Percorrer estes anúncios e toda a edição do jornal é descobrir um Porto então pacato mas cheio de urbanidade e alinhado com as modernas tendências da época.
De entre tão instigantes manifestações,fica aqui a bem acabada publicidade do Azeite Lopes, Coelho Dias que se vendia na Casa Villares da Rua Formosa no Porto. De acidez imperceptível.

22 de março de 2009

Visões do Porto (20)


Foto de Alberto Guimarães.

Cores da Primavera do Porto. Rua de S. Victor. Bem perto, o sempre contornado pela Galena, Jardim de São Lázaro.

20 de março de 2009

o grande sopro imóvel da primavera efémera


Foto de Alberto Guimarães

Escrevo-te com o fogo e a água

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.

António Ramos Rosa,Volante Verde - 1986
in Antologia Poética, Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes

Primavera


Ainda há pouco se via o Marão coberto de neve e entretanto, em dias pré-primaveris que evocavam já o Verão, arderam 30 hectares de floresta daquela serra! As mudanças climáticas esbatem as diferenças entre as estações mas os sinais da Primavera são teimosos e luminosamente atingem-nos.
Evocar a estação que hoje se inicia e a harmonia com a Natureza a que ela nos impele (apesar dos polens terríficos para rinites urbanas), convida sempre a um post na Galena. Não é hábito nestes lados mas apetece sempre desejar BOA PRIMAVERA!

13 de março de 2009

Gatos


Foto de Alberto Guimarães

(...)
Yo no conozco al gato.
Todo lo sé, la vida y su
archipiélago,
el mar y la ciudad
incalculable,
la botánica,
el gineceo con sus
extravíos,
el por y el menos de la
matemática,
los embudos volcánicos
del mundo,
la cáscara irreal del
cocodrilo,
la bondad ignorada del
bombero,
el atavismo azul del
sacerdote,
pero no puedo descifrar
un gato.
Mi razón resbaló en su
indiferencia,
sus ojos tienen números
de oro

Pablo Neruda, Oda al gato.

8 de março de 2009

Câmara de Matosinhos







Fotos de Alberto Guimarães

A pedido de várias famílias, aqui fica, para complementar o post anterior, um pequeno e despretencioso ensaio fotográfico sobre o edifício da Câmara Municipal de Matosinhos. O leitor pede, a Galena atende.

5 de março de 2009

Poder sem pudor


Foto de Alberto Guimarães

Câmara Municipal de Matosinhos, edifício do Arquitecto Alcino Soutinho. O poder sem pudor de se brincar com bolas atiradas às suas paredes. Se à funcionalidade dos interiores somarmos a harmonia do exterior, ambos os factores envolvidos em beleza patente no traço, na ocupação do espaço e nos materiais, teríamos já uma bem sucedida construção. Mas estamos perante um edifício especial, emblemático do poder democrático, onde o redor e elementos do próprio edifício são ponto de encontro e de convívio cívico.

23 de fevereiro de 2009

Felicidade e estilo


Os palácios, onde ainda há pouco rastejavam caudas de veludos caros e a luz dos lustres punha cintilações nos dourados das molduras, são abrigo de vidas e camas de convalescentes. Tempos de guerra reportados na revista feminina Modas e Bordados de 01/12/1943. Nesse número publicava-se este anúncio onde se referia que deparar com a felicidade «às vezes é uma questão de pormenor». A ilustração é bem explícita : a boa sorte é fruto de escolhas como a do Baton Khasana, comercializado então pela Mme Maria da Conceição do Largo de S. Domingos, no Porto.
Embora Portugal não tenha sido uma das nações beligerantes, o país encontrava-se em dificuldades devido a dois anos sucessivos de más colheitas e a problemas com o acesso a bens essenciais que nos eram fornecidos por nações em guerra. E ontem (como hoje, afinal), a minúcia do uso do bâton podia suprir a dificuldade de acesso a vestuário e gadgets de adorno.

15 de fevereiro de 2009

Próxima paragem Lácio


Foto de Alberto Guimarães

Próxima paragem Lácio. Sinto-me já prestes a aportar no Tirreno enquanto os carros seguem vagarosamente para perto das palmeiras da Foz ou Matosinhos She Moves. Dentro dos carros casais silenciosos que visivelmente se sentem velhos demais e para mim se afiguram muito novos para apenas procurarem a própria dor arejada de que falava Torga em Ar Livre. Crise da meia idade. Crise. Um polícia atento de arma em punho no interior do que foi um lar e onde se espalham destroços. Luz e sombras de Picasso ou Chirico. Luz. No mesmo jornal, Antonio Muñoz Molina escreve sobre a morte lenta de Susan Sontag. Percebo. Porque já não tenho medo do escuro. A partir de ahí el libro es una pesadilla iliminada por una claridad como la que no se apaga nunca en los corredores de las clínicas… Ontem foi sexta-feira 13, hoje namorados transportam desajeitadamente ramos de flores. A miúda em frente a mim diz que não se importa de eu quase lhe ter deitado as flores ao chão. Ela não gosta de flores. Volto ao meu MP3. E me apraz essa ilusão à toa apesar das crianças de Sabra e Chatila. Johnny Alf nos ouvidos. Final de tarde de sábado.

9 de fevereiro de 2009

Visões do Porto (19)


Foto de Alberto Guimarães

Uma das portas do Hospital de Santo António na Rua Dr. Tiago de Almeida.

5 de fevereiro de 2009

Rumo ao sul


Vinheta de O Ceptro de Ottokar, As Aventuras de Tintim, Hergé

Espinho, 18 – Hoje, cerca das 3 horas da tarde, sentiu-se ao longe, para os lados do sul, o trepidar do motor de um hydro-avião que marchava em direcção a Espinho.
Mettido a terra, effectivamente o magnifico apparelho voador, logo que chegou a Espinho baixou bastante; nas alturas da rua Bandeira Coelho, descreveu uma curva e mettendo-se ao mar seguiu novamente o rumo sul.
Do hydro-avião cahiram papeis, que a vibração levou para o mar, não se sabendo, por isso, o que diziam.
A´ praia afluíram bastantes pessoas gosando o lindo voo do hydro-avião.

in O Comércio do Porto, 19 de Junho de 1925

As notícias importantes perduram. Como esta, sobre um aparelho voador que sobrevoou Espinho numa tarde de Junho de 1925. A estória de um hidroavião que subitamente aparece e entusiasma as pessoas com um, como o escriba não se coíbe em classificar, lindo voo, para depois desaparecer rumo ao sul, é tocante como um haikai. E de um encanto perdurante.