Já agora, esta era a capa da Vida Mundial de 13/08/1971.
24 de abril de 2008
Intervalo para publicidade - Triple Marfel
Na arena da moda camisa rosa negra, em autêntica cambraia fresca, leve e elegante. Camisa rosa negra, a camisa com o monograma da distinção.
Na Galena, mais um sempre apreciado intervalo para publicidade, desta vez com um anúncio publicado na extinta revista portuguesa Vida Mundial, em 13/08/1971. A Triple Marfel de Felgueiras, empresa fundada nos anos 50, continua a produzir em pleno dinamismo e com distinção.
Pessoalmente, encanta-me a pin-up ibérica escolhida para esta publicidade.
22 de abril de 2008
Porto, cidade-campo
Fotos de Alberto Guimarães.
Algum tempo atrás publiquei aqui uma foto que mostrava o cenário de um dos últimos redutos rurais da cidade do Porto. Eles ainda existem. Dispersos mas a rarearem. Este fenómeno de vivências de ruralidade em plena malha urbana (ou será o contrário apesar da actual desproporção?) é insólito mas torna o Porto e as suas periferias numa região onde ainda não se sentirá tanto o que poderá ser a consternação urbana.
Onde existem mais bolsas rurais dento do Porto é no Vale de Campanhã. Foi ali, em Azevedo, que me cruzei ontem com um rebanho em auto-gestão, com um pastor ausente quiçá para almoçar num centro comercial. Mas quem ali costuma passar, sabe que até se me podia pôr diante um carro de bois. Que continue assim o Vale de Campanhã, com muito verde (pinheiros-bravos até) e as ovelhas e cabras a atrapalhar o trânsito.
19 de abril de 2008
Endless rain
Ponte do Freixo vista da janela do bar do CACE Cultural Porto, ontem à tarde.
Foto de Alberto Guimarães
Não é uma chuva sem fim. Ela de facto pára por vezes mas ainda não vi o arco-íris. Quando o sol momentaneamente surge, olho pela janela e tento encontrar as cores do arco celeste. Cores que uma mnemónica ritmada que ouço dentro da minha cabeça me ajuda a lembrar e sequenciar: vermelho lá vai violeta. Tenho também, para editar a banda sonora destes dias de primavera tempestiva, além da música da chuva a cair e do vento a zurzir, uma canção dos X-Japan a tocar no rádio: endless rain, let me stay / evermore in your heart / Let my heart take in your tears/ take in your memories.
13 de abril de 2008
Oleiros
Que imagem é esta? Em concreto, não sei. Presumo que date dos anos 20. É um postal que só tem uma face, não me perguntem porquê, não respondo. A fotografia vive e vale por si, mesmo sem a aquiescência de dados ou uma justificativa que ela ilustrasse. Esta família parece que vivia da olaria. E eram os varões que moviam as rodas e moldavam o barro. A mãe tem um ar débil e consumido e a filha mais velha, ainda criança, toma conta de um bebé. Como terá sido a continuação da vida destas pessoas? O ar decidido dos três oleiros terá conseguido fazer desaparecer o tom desencantado de toda a família? Quero crer que sim. Vieram peritos / em habilidades / dizer que a fortuna cresce nas cidades, canta o Sérgio Godinho em Barnabé. Aquele Portugal já não existe embora estes rostos estejam aí. Ou chegam todos os agostos de para lá dos Pirinéus a conduzir mercedes e bmw’s. Nesta foto está o antes e o agora.
9 de abril de 2008
No Porto
31 de março de 2008
Azul
Foto de Alberto Guimarães
Azul(1)
Eu era contrário ao Azul.
Eu desconfiava de sua ubiqüidade
Eu era anti-Klein (2), Yves Klein era um artista cheio de si, um poseur.
Eu costumava dizer que o azul não existe enquanto cor, que o azul do céu é uma ilusão. Isso, porque o céu não é algo concreto, mas um vazio que - como todos sabem através do fenômeno da noite e das odisséias espaciais - é negro. Se o mar é um reflexo do céu, seu azulado também é uma ilusão - ou pior - uma ilusão de uma ilusão.
O azul do olho é um truque da luz, concebido para sustentar eugenias germânicas. Se você tentasse extrair o azul do olho, não conseguiria.
Impossível reter cristais azuis ou fluido azul na palma da mão. Miosótis são azuis. Bem-me-quer, mal-me-quer azul. Já sinto o azul no cerne azulado da própria flor.
Lápis-lazúli ? Entramos na zona do difícil. O azul foi feito para ser exclusivo da Virgem Maria, colhido das minas longínquas das Montanhas Urais. A quintessência da imaginação religiosa. Jacintos, celacantos, a baleia azul - anomalias, híbridos, quimeras.
Difícil ser contrário ao azul para sempre. Continuei tentando.
Fiz um filme em Roma chamado A Barriga do Arquiteto. Eu quis jogar o jogo dos opostos. Eu quis que o filme se limitasse a dois conjuntos conceituais de cor. Primeiro, as cores do filme deveriam ser encontradas apenas no corpo humano - preto, branco, marrom, rosa, cinza, sépia - nenhum verde ou azul. Depois, as cores do filme deveriam ser estritamente relacionadas às cores da arquitetura de Roma - os muros e os telhados, os ladrilhos e o mármore. A mesma combinação de cores do corpo humano.
No filme, usamos filtros especiais para anular a cor do céu e apagar a cor das árvores. Fiz algumas raras concessões ao verde, já que o verde era a cor do inimigo. Os vilões usavam gravatas verdes e dirigiam carros verdes. Quando o corpo humano entra em decomposição, torna-se verde. Mas os limites do azul estavam se rompendo.
Eu nada tinha a ver com o "blue jay's wing" acompanhado pelo "Blue Jay Way" de George Harrison, ou com uma pena azul do rabo do pavão, e a KLM, a companhia aérea holandesa, ou o azul das asas no vôo do avião. O azul que, sombrio, se desvia para o infinito. O sangue azul para a nobreza fisiológica do corpo. Ou Gorgonzola, o queijo azul, substituído pelo Stilton Azul inglês com amoras, para um comer azul.
Ou Sinatra como o "Old Blue Eyes", os "Blue Suede Shoes" de Elvis Presley, O "Danúbio Azul" de Strauss, a nota azul, o triste azul, o "Barba Azul" de Bella Bartók. Os azuis e os pauis, uma memória azul, o "tudo azul, completamente blue", de Cazuza para cantar e dançar(3) . Um peixe azul em exílio nas águas de Zurique. As fichas azuis no cassino de San Remo. O brilho do gelo azul para os diamantes da África do Sul. Um rumor azul, o azul absurdo de um nu. Um lápis azul para resumir a dor. As garatujas da esferográfica azul de Derek Jarman, Jan Fabre e Amish Kapoor. Para uma arte azul. No cinema, a "Imensidão Azul" e "A Lagoa Azul".
Uma gorjeta azulada, a nota de 10 florins com a efígie de Frans Hals em azul. Por que os italianos colocam grandes pintores em notas grandes e os holandeses põem grandes pintores em notas pequenas?
E inumeráveis clichês e provérbios - Faça um rio azul ascender pela coluna e alcançar o lótus das mil pétalas. Um vento azul não sopra nada além do azar. A ágil raposa azul salta sobre o preguiçoso cão azul. Quem vive em uma casa azul não deveria azucrinar o vizinho. Ficar azul de ódio. O "tudo azul", o zum-zum da abelha de Azure. Zoom. Harry Bloom, Bloomingdales, o manto azul do gato persa, o azul-calcinha, o azul-fantasma, o quarto azul, o trem azul, azulejos. Fui vencido(4).
Azul
Ai! (uma expressão muito azul) - parece que o azul tomou conta de tudo. Já não posso seguir no meu antagonismo à cor. Tanto mais que Giovanni Bogani encontrou, em seu romance Blu, ainda muito mais azul.
Peter Greenaway
Notas
(1) Este texto é o prefácio que Peter Greenaway escreveu para o romance "Blu", do escritor italiano Giovanni Bogani.
(2) Ives Klein, artista plástico francês (1928-1964), que fez vários trabalhos monocromático em cor azul.
(3) Versão livre de: 'Blue moon, I saw you standing alone', for singing and dancing".
(4) Este parágrafo foi totalmente "transcriado" a partir de expressões brasileiras e provérbios orientais.
Tradução: Maria Esther Maciel. Transcrito, com a devida vénia, da Revista Zunai http://www.revistazunai.com.br
21 de março de 2008
Primavera
Lago do Jardim de S. Lázaro no Porto e escultura de Sérgio Taborda.
Foto de Alberto Guimarães
Vejo (sinto) o lânguido dorso a abraçar a minha sombra que ali é tão bem recebida como os reflexos do céu ou de algum dos telhados vizinhos. Se eu me voltar, a beleza continuará numa deslumbrante fachada barroca ou em canteiros ornados com coloridas flores. Mas sustenho-me neste lago e no verde tenro que o cerca. Respiro o ar ainda fresco da manhã e assim dou as boas vindas à Primavera.
17 de março de 2008
Nivea Creme Art-Nouveau
14 de março de 2008
Manhã
Foto de Alberto Guimarães.
A Galena também se escreve com a luz da manhã. Esta manhã não é de luz pálida mas não deixa de ser desmaiada como todas as manhãs e lembrou-me este poema de Fernando Pessoa:
Manhã
A pálida luz da manhã de inverno,
O cais e a razão
Não dão mais 'sperança, nem menos 'sperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.
No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem menos sossego sequer,
Para o meu 'sperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.
13 de março de 2008
Bom Sucesso
8 de março de 2008
Carta
Alberto de Serpa por António Carneiro, 1929. Reproduzido de A Poesia de Alberto de Serpa, Edições Nova Renascença.
O interessante de um blog é também a não obrigatoriedade de publicar. A Galena pauta-se por aquele provérbio árabe «se o que tens a dizer não é mais belo que o silêncio, então cala-te». Tenho portanto empreendido reproduzir palavras e imagens transcendentes ou generosas e procuro não contundir demasiado o silêncio com o que eu mesmo crio e com a forma como comunico. Por outro lado, por vezes, devido a vicissitudes várias, o ímpeto de publicar algo não passa de intenção que mesmo a determinação não consegue concretizar. É o caso de um post que redigi há mais de um ano mas ficou retido, inacabado e esquecido. Encontrei-o hoje, e a verdade é que ele contém algo de muito belo e que portanto não vou silenciar mais.
22/10/57
Todos nós viajamos muito…
… Eu mesma estou voltando agora de Porto-Rico, com muitos canaviais pela alma, e muito vento do Caribe. Isto há-de virar também romance, e então lhe falará melhor.
Adeus, Poeta. Mande-me sempre seus versos e, se puder, alguma notícia. Sua constante amiga
Cecília
Estas gentis palavras, envolvidas de sortilégio, eram dirigidas do Brasil, dentro de um envelope emoldurado a verde e amarelo, por Cecília Meireles para o poeta Alberto de Serpa no Porto. Anotei-as em Dezembro de 2006 quando visitei a exposição “Alberto de Serpa, A Paixão de Coleccionar”, organizada pela Biblioteca Pública Municipal do Porto. Comemorava-se o centenário do nascimento do poeta que ao longo da sua vida manteve amizade e contactos com imensos intelectuais portugueses e estrangeiros. A exposição mostrava numerosíssimo acervo, reunido por Alberto de Serpa ao longo da sua vida, designadamente cartas, cartões, desenhos e manuscritos de importantes figuras da cultura.
As palavras de Cecília Meireles com muitos canaviais pela alma, perduraram na missiva acautelada por Serpa. O que é belo e importante sempre perdura.
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