31 de março de 2008

Azul


Foto de Alberto Guimarães

Azul(1)

Eu era contrário ao Azul.

Eu desconfiava de sua ubiqüidade

Eu era anti-Klein (2), Yves Klein era um artista cheio de si, um poseur.

Eu costumava dizer que o azul não existe enquanto cor, que o azul do céu é uma ilusão. Isso, porque o céu não é algo concreto, mas um vazio que - como todos sabem através do fenômeno da noite e das odisséias espaciais - é negro. Se o mar é um reflexo do céu, seu azulado também é uma ilusão - ou pior - uma ilusão de uma ilusão.

O azul do olho é um truque da luz, concebido para sustentar eugenias germânicas. Se você tentasse extrair o azul do olho, não conseguiria.

Impossível reter cristais azuis ou fluido azul na palma da mão. Miosótis são azuis. Bem-me-quer, mal-me-quer azul. Já sinto o azul no cerne azulado da própria flor.

Lápis-lazúli ? Entramos na zona do difícil. O azul foi feito para ser exclusivo da Virgem Maria, colhido das minas longínquas das Montanhas Urais. A quintessência da imaginação religiosa. Jacintos, celacantos, a baleia azul - anomalias, híbridos, quimeras.

Difícil ser contrário ao azul para sempre. Continuei tentando.

Fiz um filme em Roma chamado A Barriga do Arquiteto. Eu quis jogar o jogo dos opostos. Eu quis que o filme se limitasse a dois conjuntos conceituais de cor. Primeiro, as cores do filme deveriam ser encontradas apenas no corpo humano - preto, branco, marrom, rosa, cinza, sépia - nenhum verde ou azul. Depois, as cores do filme deveriam ser estritamente relacionadas às cores da arquitetura de Roma - os muros e os telhados, os ladrilhos e o mármore. A mesma combinação de cores do corpo humano.

No filme, usamos filtros especiais para anular a cor do céu e apagar a cor das árvores. Fiz algumas raras concessões ao verde, já que o verde era a cor do inimigo. Os vilões usavam gravatas verdes e dirigiam carros verdes. Quando o corpo humano entra em decomposição, torna-se verde. Mas os limites do azul estavam se rompendo.

Eu nada tinha a ver com o "blue jay's wing" acompanhado pelo "Blue Jay Way" de George Harrison, ou com uma pena azul do rabo do pavão, e a KLM, a companhia aérea holandesa, ou o azul das asas no vôo do avião. O azul que, sombrio, se desvia para o infinito. O sangue azul para a nobreza fisiológica do corpo. Ou Gorgonzola, o queijo azul, substituído pelo Stilton Azul inglês com amoras, para um comer azul.

Ou Sinatra como o "Old Blue Eyes", os "Blue Suede Shoes" de Elvis Presley, O "Danúbio Azul" de Strauss, a nota azul, o triste azul, o "Barba Azul" de Bella Bartók. Os azuis e os pauis, uma memória azul, o "tudo azul, completamente blue", de Cazuza para cantar e dançar(3) . Um peixe azul em exílio nas águas de Zurique. As fichas azuis no cassino de San Remo. O brilho do gelo azul para os diamantes da África do Sul. Um rumor azul, o azul absurdo de um nu. Um lápis azul para resumir a dor. As garatujas da esferográfica azul de Derek Jarman, Jan Fabre e Amish Kapoor. Para uma arte azul. No cinema, a "Imensidão Azul" e "A Lagoa Azul".

Uma gorjeta azulada, a nota de 10 florins com a efígie de Frans Hals em azul. Por que os italianos colocam grandes pintores em notas grandes e os holandeses põem grandes pintores em notas pequenas?

E inumeráveis clichês e provérbios - Faça um rio azul ascender pela coluna e alcançar o lótus das mil pétalas. Um vento azul não sopra nada além do azar. A ágil raposa azul salta sobre o preguiçoso cão azul. Quem vive em uma casa azul não deveria azucrinar o vizinho. Ficar azul de ódio. O "tudo azul", o zum-zum da abelha de Azure. Zoom. Harry Bloom, Bloomingdales, o manto azul do gato persa, o azul-calcinha, o azul-fantasma, o quarto azul, o trem azul, azulejos. Fui vencido(4).

Azul


Ai! (uma expressão muito azul) - parece que o azul tomou conta de tudo. Já não posso seguir no meu antagonismo à cor. Tanto mais que Giovanni Bogani encontrou, em seu romance Blu, ainda muito mais azul.

Peter Greenaway

Notas

(1) Este texto é o prefácio que Peter Greenaway escreveu para o romance "Blu", do escritor italiano Giovanni Bogani.
(2) Ives Klein, artista plástico francês (1928-1964), que fez vários trabalhos monocromático em cor azul.
(3) Versão livre de: 'Blue moon, I saw you standing alone', for singing and dancing".
(4) Este parágrafo foi totalmente "transcriado" a partir de expressões brasileiras e provérbios orientais.

Tradução: Maria Esther Maciel. Transcrito, com a devida vénia, da Revista Zunai http://www.revistazunai.com.br

21 de março de 2008

Primavera


Lago do Jardim de S. Lázaro no Porto e escultura de Sérgio Taborda.
Foto de Alberto Guimarães

Vejo (sinto) o lânguido dorso a abraçar a minha sombra que ali é tão bem recebida como os reflexos do céu ou de algum dos telhados vizinhos. Se eu me voltar, a beleza continuará numa deslumbrante fachada barroca ou em canteiros ornados com coloridas flores. Mas sustenho-me neste lago e no verde tenro que o cerca. Respiro o ar ainda fresco da manhã e assim dou as boas vindas à Primavera.

17 de março de 2008

Nivea Creme Art-Nouveau




Nem sempre se apresentaram de azul e branco as latinhas do Nívea Creme. O visual com as cores que lhe reconhecemos de imediato teve início em 1926. Era assim, com uma decoração art-nouveu, que se lançava em 1911 na Alemanha o alvo creme onde sempre apetece afundar os dedos.

14 de março de 2008

Manhã


Foto de Alberto Guimarães.

A Galena também se escreve com a luz da manhã. Esta manhã não é de luz pálida mas não deixa de ser desmaiada como todas as manhãs e lembrou-me este poema de Fernando Pessoa:

Manhã

A pálida luz da manhã de inverno,
O cais e a razão
Não dão mais 'sperança, nem menos 'sperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.

No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem menos sossego sequer,
Para o meu 'sperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.

13 de março de 2008

Bom Sucesso


Foto de Alberto Guimarães

It Don't Mean A Thing (If It Ain't Got That Swing). O swing da arquitectura do Mercado do Bom Sucesso, Porto.

8 de março de 2008

Carta



Alberto de Serpa por António Carneiro, 1929. Reproduzido de A Poesia de Alberto de Serpa, Edições Nova Renascença.


O interessante de um blog é também a não obrigatoriedade de publicar. A Galena pauta-se por aquele provérbio árabe «se o que tens a dizer não é mais belo que o silêncio, então cala-te». Tenho portanto empreendido reproduzir palavras e imagens transcendentes ou generosas e procuro não contundir demasiado o silêncio com o que eu mesmo crio e com a forma como comunico. Por outro lado, por vezes, devido a vicissitudes várias, o ímpeto de publicar algo não passa de intenção que mesmo a determinação não consegue concretizar. É o caso de um post que redigi há mais de um ano mas ficou retido, inacabado e esquecido. Encontrei-o hoje, e a verdade é que ele contém algo de muito belo e que portanto não vou silenciar mais.


22/10/57

Todos nós viajamos muito…
… Eu mesma estou voltando agora de Porto-Rico, com muitos canaviais pela alma, e muito vento do Caribe. Isto há-de virar também romance, e então lhe falará melhor.

Adeus, Poeta. Mande-me sempre seus versos e, se puder, alguma notícia. Sua constante amiga
Cecília


Estas gentis palavras, envolvidas de sortilégio, eram dirigidas do Brasil, dentro de um envelope emoldurado a verde e amarelo, por Cecília Meireles para o poeta Alberto de Serpa no Porto. Anotei-as em Dezembro de 2006 quando visitei a exposição “Alberto de Serpa, A Paixão de Coleccionar”, organizada pela Biblioteca Pública Municipal do Porto. Comemorava-se o centenário do nascimento do poeta que ao longo da sua vida manteve amizade e contactos com imensos intelectuais portugueses e estrangeiros. A exposição mostrava numerosíssimo acervo, reunido por Alberto de Serpa ao longo da sua vida, designadamente cartas, cartões, desenhos e manuscritos de importantes figuras da cultura.
As palavras de Cecília Meireles com muitos canaviais pela alma, perduraram na missiva acautelada por Serpa. O que é belo e importante sempre perdura.

6 de março de 2008

Mais Stuart


Outra ilustração de Stuart Carvalhais que foi abordado aqui em dois posts anteriores e ainda recentes. Uma imagem inserida com um texto histórico publicado em Agosto de 1943 na revista O Mundo Português, propriedade do então Ministério das Colónias. A estética da ilustração sugere o universo de O Fantasma, série de BD criada por Lee Falk.

1 de março de 2008

Tipografia


Foto de Alberto Guimarães

Apartado do bulício do centro da cidade, este senhor envolve-se na tarefa de criar ordem estrutural num mundo de papeis e tipos. Fascinante atmosfera a da Tipografia Nunes & Rocha, na Rua Passos Manuel.

28 de fevereiro de 2008

O tempo


Foto de Alberto Guimarães

Nas traseiras da rua do Freixo e da desmantelada fábrica Mário Navega, fica, quase escondida, a Rua do Arco de Noeda. O inesperado arco interrompido na fábrica abandonada, um empedrado inusitado, a casa ténue, o silêncio... e o vagar. Aqui o tempo parece ser outro.

Almoçar em casa


Foto de Alberto Guimarães

Há um Porto que vai almoçar a casa, que vive em casas sem esquadrias perfeitas e com alvenaria ornada de cores vivas. Um Porto que não mudou para assépticos e incaracterísticos subúrbios. Ainda.
O registo da fotografia assinala as 13:38 de ontem. Rua do Freixo, Campanhã.

20 de fevereiro de 2008

Bus 507



Duas fotografias um tanto insólitas, feitas hoje por volta das 10 horas da manhã no bus 507, sentido Leça-Porto: inusitada temperatura amena permite aprazíveis passeios de bicicleta na praia de Matosinhos em pleno Inverno. E em Monte dos Burgos, no meio da massa urbana, ainda se pode ver da Circunvalação, uma bucólica cena rural com tractor.

Stuart



Outra capa da responsabilidade de Stuart Carvalhais. A pauta de A Casinha da Colina, canção da dupla brasileira Os Geraldos. Canção e dupla foram muito populares em Lisboa nos anos 20.