21 de março de 2008

Primavera


Lago do Jardim de S. Lázaro no Porto e escultura de Sérgio Taborda.
Foto de Alberto Guimarães

Vejo (sinto) o lânguido dorso a abraçar a minha sombra que ali é tão bem recebida como os reflexos do céu ou de algum dos telhados vizinhos. Se eu me voltar, a beleza continuará numa deslumbrante fachada barroca ou em canteiros ornados com coloridas flores. Mas sustenho-me neste lago e no verde tenro que o cerca. Respiro o ar ainda fresco da manhã e assim dou as boas vindas à Primavera.

17 de março de 2008

Nivea Creme Art-Nouveau




Nem sempre se apresentaram de azul e branco as latinhas do Nívea Creme. O visual com as cores que lhe reconhecemos de imediato teve início em 1926. Era assim, com uma decoração art-nouveu, que se lançava em 1911 na Alemanha o alvo creme onde sempre apetece afundar os dedos.

14 de março de 2008

Manhã


Foto de Alberto Guimarães.

A Galena também se escreve com a luz da manhã. Esta manhã não é de luz pálida mas não deixa de ser desmaiada como todas as manhãs e lembrou-me este poema de Fernando Pessoa:

Manhã

A pálida luz da manhã de inverno,
O cais e a razão
Não dão mais 'sperança, nem menos 'sperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.

No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem menos sossego sequer,
Para o meu 'sperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.

13 de março de 2008

Bom Sucesso


Foto de Alberto Guimarães

It Don't Mean A Thing (If It Ain't Got That Swing). O swing da arquitectura do Mercado do Bom Sucesso, Porto.

8 de março de 2008

Carta



Alberto de Serpa por António Carneiro, 1929. Reproduzido de A Poesia de Alberto de Serpa, Edições Nova Renascença.


O interessante de um blog é também a não obrigatoriedade de publicar. A Galena pauta-se por aquele provérbio árabe «se o que tens a dizer não é mais belo que o silêncio, então cala-te». Tenho portanto empreendido reproduzir palavras e imagens transcendentes ou generosas e procuro não contundir demasiado o silêncio com o que eu mesmo crio e com a forma como comunico. Por outro lado, por vezes, devido a vicissitudes várias, o ímpeto de publicar algo não passa de intenção que mesmo a determinação não consegue concretizar. É o caso de um post que redigi há mais de um ano mas ficou retido, inacabado e esquecido. Encontrei-o hoje, e a verdade é que ele contém algo de muito belo e que portanto não vou silenciar mais.


22/10/57

Todos nós viajamos muito…
… Eu mesma estou voltando agora de Porto-Rico, com muitos canaviais pela alma, e muito vento do Caribe. Isto há-de virar também romance, e então lhe falará melhor.

Adeus, Poeta. Mande-me sempre seus versos e, se puder, alguma notícia. Sua constante amiga
Cecília


Estas gentis palavras, envolvidas de sortilégio, eram dirigidas do Brasil, dentro de um envelope emoldurado a verde e amarelo, por Cecília Meireles para o poeta Alberto de Serpa no Porto. Anotei-as em Dezembro de 2006 quando visitei a exposição “Alberto de Serpa, A Paixão de Coleccionar”, organizada pela Biblioteca Pública Municipal do Porto. Comemorava-se o centenário do nascimento do poeta que ao longo da sua vida manteve amizade e contactos com imensos intelectuais portugueses e estrangeiros. A exposição mostrava numerosíssimo acervo, reunido por Alberto de Serpa ao longo da sua vida, designadamente cartas, cartões, desenhos e manuscritos de importantes figuras da cultura.
As palavras de Cecília Meireles com muitos canaviais pela alma, perduraram na missiva acautelada por Serpa. O que é belo e importante sempre perdura.

6 de março de 2008

Mais Stuart


Outra ilustração de Stuart Carvalhais que foi abordado aqui em dois posts anteriores e ainda recentes. Uma imagem inserida com um texto histórico publicado em Agosto de 1943 na revista O Mundo Português, propriedade do então Ministério das Colónias. A estética da ilustração sugere o universo de O Fantasma, série de BD criada por Lee Falk.

1 de março de 2008

Tipografia


Foto de Alberto Guimarães

Apartado do bulício do centro da cidade, este senhor envolve-se na tarefa de criar ordem estrutural num mundo de papeis e tipos. Fascinante atmosfera a da Tipografia Nunes & Rocha, na Rua Passos Manuel.

28 de fevereiro de 2008

O tempo


Foto de Alberto Guimarães

Nas traseiras da rua do Freixo e da desmantelada fábrica Mário Navega, fica, quase escondida, a Rua do Arco de Noeda. O inesperado arco interrompido na fábrica abandonada, um empedrado inusitado, a casa ténue, o silêncio... e o vagar. Aqui o tempo parece ser outro.

Almoçar em casa


Foto de Alberto Guimarães

Há um Porto que vai almoçar a casa, que vive em casas sem esquadrias perfeitas e com alvenaria ornada de cores vivas. Um Porto que não mudou para assépticos e incaracterísticos subúrbios. Ainda.
O registo da fotografia assinala as 13:38 de ontem. Rua do Freixo, Campanhã.

20 de fevereiro de 2008

Bus 507



Duas fotografias um tanto insólitas, feitas hoje por volta das 10 horas da manhã no bus 507, sentido Leça-Porto: inusitada temperatura amena permite aprazíveis passeios de bicicleta na praia de Matosinhos em pleno Inverno. E em Monte dos Burgos, no meio da massa urbana, ainda se pode ver da Circunvalação, uma bucólica cena rural com tractor.

Stuart



Outra capa da responsabilidade de Stuart Carvalhais. A pauta de A Casinha da Colina, canção da dupla brasileira Os Geraldos. Canção e dupla foram muito populares em Lisboa nos anos 20.

19 de fevereiro de 2008

Mais vale andar no mar alto...



Segunda-feira, 11 de Maio
Esta tarde, no Museu do Cairo, entre um sorriso doce da princesa Nafrit e um olhar desconfiado dessa velha águia real que é o faraó Ramsés II, os meus olhos poisaram sobre a múmia pálida de Tut-Ank-Amon. Uma luz doirada, que caía do alto, iluminava o cristal da urna funerária. À minha volta, em meio de um silêncio sepulcral, erravam sombras milenárias. Nos vasos de alabastro, animavam-se as figurinhas elegantes do primeiro império. Uma penumbra doce envolvia no seu leito de morte a figura melancólica do faraó. Nos seus lábios tristes pairava um resplendor de eternidade.

Este é um dos apontamentos de viagem redigidos por esse proeminente jornalista português que foi Norberto Lopes (1900-1989)em "Mais vale andar no mar alto...". Um livro escrito sobre o mar. No recolhimento da câmara de um navio de guerra, à hora em que as embarcações dormiam sobre os turcos, eu ia traçando rapidamente as minhas impressões num diário de viagem. Palavras do prefácio que o autor concluía com convicção: (..) viajar é viver numa eterna ilusão, num eterno sonho de felicidade, num eterno encantamento dos sentidos e o homem vive muito mais de ilusões, de sonhos e de quimeras do que da nudez triste da realidade. A ilustração da capa saiu da proficiência de Stuart Carvalhais (1887- 1961). Creio que o elegante grafismo da capa seja também de Stuart, artista sobre quem se pode encontrar muita documentação na internet, como teria de ser tratando-se de alguém que nos legou obra notável no domínio da ilustração e da caricatura, entre outras áreas, designadamente a banda desenhada de que foi um pioneiro.
Este livro, que tive de ler e colocar no scaner com todo o cuidado, data de 1925.