16 de setembro de 2007

A silly season terminou!

O Verão, as nossas deambulações entre bronzeadores e refrescantes bebidas acrescidas de flor de lúpulo, não teriam de justificar tantos conteúdos patetóides disseminados nos media. Nunca entendi porque razão o estio nos terá de privar de ler bons artigos nos jornais, com o pretexto de, então, só se dever usar os neurónios para resolver problemas de sodoku. Mas não tenho esperança que a situação mude. Resigno-me.
Presentemente, o país começa a abandonar a indolência, e já se começa a ver vida inteligente por aí. Aquilino Ribeiro vai ser homenageado publicamente no dia 19 que se avizinha, aquando da sua tumulização no Panteão Nacional, e o Expresso publicou ontem um interessante pequeno dossier sobre o escritor beirão. A paginação é excelente, o que julgo se denota na foto acima. Dois artigos e uma reportagem na Beira Alta de Aquilino, propiciam, uma aprazível leitura, bem como estimulam a perscrutar o trabalho literário que o autor de «O Malhadinhas» desenvolveu ao longo de cinquenta anos.
Por mim, dou como marco de que a silly season terminou, este dossier do Expresso e a entrada dos restos mortais de Aquilino no Panteão Nacional.

8 de setembro de 2007

Noite

Foto de Alberto Guimarães

Já a sombra selou
os espelhos que copiam a ficção das coisas.

Do poema “A jovem noite” de Jorge Luís Borges, in Os Conjurados.



6 de setembro de 2007

Luz de Setembro



Praça Marquês de Pombal, Porto, ontem ao final do dia. A luz de Setembro, pois.

Edição Photoshop de Margarida Guimarães

Retornar

Leque. Folha de papel ou tecido montada num suporte de haste com varetas articuladas. Serve para agitar o ar refrescando as pessoas, como enxota-moscas e também como ornato para as senhoras. Conheceraram-no os portugueses no Oriente no séc. XVI, divulgando-o na Europa. O material e a ornamentação variaram com a moda.
In Enciclopédia Fundamental Verbo.

A Galena retorna num final de Verão abafante. Estes dias de Setembro costumam ser mais fresquinhos mas não faz mal. Apesar da evidente luz de Setembro, pode-se esquecer que o frio virá em breve. E usar o leque. Porque o ar condicionado pode provocar a Legionella.

Edição de Photoshop de Margarida Guimarães

2 de agosto de 2007

Inutile finestra


Foto de Alberto Guimarães


Visione del solenzio
Angolo vuoto
Pagina senza parole
Una lettera scritta sopra un viso
Di pietra e vapore
Amore
Inutile finestra

Michelangelo Antonioni / Caetano Veloso



29 de junho de 2007

A cidade é muito grande


Ontem, no final do da tarde, fotografei esta casa. À sua volta outras tinham sido abatidas por uma sanha com forma de bulldozer. Talvez ela já não exista também.Entretanto ali se mantinha, irradiando um silêncio instigante e perturbante.
À noite, assim teria que ser, ouvi num disco antigo de Francis Hime esta canção, o blue certo para acompanhar a imagem.


As telhas já estão pesando
Sobre esta casa cansada
Em silêncio ela espera
A hora de ser julgada.
Avenidas se debruçam
Sobre a casa condenada
A casa é muito grande
Uma casa não é nada.
Uma casa é só o rosto
De um sorriso de criança
De uma noite de agonia
De um dia de esperança
De um vazio de ternura
Que nem chega a ser lembrança.

Demolição, Francis Hime / Carlos Queiroz Telles








23 de junho de 2007

Maria Rita

Raúl Indipwo e Milo MacMahon formaram o Duo Ouro Negro no ano de 1956 em Angola. Já com base em Lisboa, desenvolveram até ao falecimento de Milo em 1985 um trabalho prospectivo e pioneiro em Portugal com a música africana que encaravam com rigor, respeito e inventiva. Este caminho foi percorrido ainda por Raúl até ao seu recente desaparecimento. Tenho para mim que a música do Duo Ouro Negro, apesar de ter obtido assinalável sucesso em Portugal e no exterior, sempre foi encarada em alguns meios com nefastos preconceitos de vária ordem. Talvez por isso, discos excelentes como Africaníssimo ou Blackground não são ainda devidamente reconhecidos em todo o seu valor.
Trago aqui hoje o Duo Ouro Negro, porque uma das canções pop que eles mesclavam e intercalavam com a sua abordagem à música africana, transluz muito do ambiente e do espírito do S. João no Porto: Maria Rita.
Diz-me o amigo Décio do Ó, que anima o excelente blog http://duoouronegro.blogspot.com/, e que me forneceu gentilmente a imagem da capa do disco, que Maria Rita é um lançamento de 1969.
Hesitei em colocar neste post a capa, que me parece pouco feliz. Faço-o, porque ela é um testemunho de que o Duo Ouro Negro nem sempre viu o seu trabalho ser veiculado como merecia.
E aqui fica a letra de Maria Rita:

Foi um dia nas Fontainhas
Que a vi falando com umas amigas
Atirei-lhe beijos, elas riram das gracinhas
São coisas próprias das raparigas
E eu voltei, todos os dias a procurei
E soube que ela se chamava Rita
Foi a moça mais bacana que encontrei
E tinha os cabelos presos com uma fita

Maria Rita, Maria Rita
Eu pergunto à multidão, mas ninguém a viu passar
Maria Rita, Maria Rita
Dou uma vela a S. João se a voltar a encontrar

Quando chegou a madrugada
Ninguém sabia de nada
E eu voltei tão triste, tão triste
Que se ela soubesse voltava para me abraçar

Era noite de S. João
Toda a cidade estava iluminada
E toda a gente vinha em folia, em turbilhão
E nessa gente vinha a minha amada
E trazia a amarrar o cabelo negro
A mesma fita da cor do céu
Com a mão atirou-me um beijo
E entre a multidão desapareceu

Manjericos

A Galena abre a janela, no caso sobre o Mercado do Bolhão, para a imprescendível fragância dos manjericos.
Bom S. João!

21 de junho de 2007

Verão



Verão, Giuseppe Arcimboldo, 1573.

19 de junho de 2007

O que é que os esteróides sexuais têm a ver com a voz e o canto?


Porque a Galena também tem um pendor informativo, repasso o texto de um e-mail que me chegou a divulgar o que poderá ser um cativante evento, a anteceder a vigília da noite de S. João. Reproduzo-o, mesmo achando que «music medicine», se não tem, deveria ter forma de expressar em Português.

A «music medicine» está para a música como a medicina desportiva está para o desporto. Filipa Lã, 32 anos, investigadora da Universidade de Aveiro (e Faculdade de Medicina da Universidade do Porto) e soprano, vai falar da interferência dos esteróides sexuais na voz e no canto. E vai também cantar poemas de António Botto acompanhada pelo pianista Francisco Monteiro! Venha participar no debate e traga outro amigo também!

É no sábado, véspera de S. João, às 16h30, na FNAC do NorteShopping, no Porto (Matosinhos). A sessão termina com a actuação do grupo de música tradicional portuguesa «Chamaste-m'ó», que começou a carreira em 1995 nas «Noites da Sociologia» da Universidade do Porto. Às 17 horas serão servidos chá verde e scones. A sessão é organizada pelo Ciência Hoje e pelo Fórum Internacional de Investigadores Portugueses (FIIP).

A voz é um alvo hormonal. Os Castrati (castrados) são um exemplo histórico de como variações nas concentrações de hormonas esteróides sexuais podem interferir com a qualidade vocal de um indivíduo. É também disto que nos vai falar Filipa Lã, bióloga de formação e soprano, e que está a fazer o seu pos-doutoramento na Universidade de Aveiro, onde continua a desenvolver investigação sobre Performance Vocal. Filipa vai falar e cantar temas de M. Sousa Santos sobre poemas de António Botto, acompanhada do pianista Francisco Monteiro, professor na ESE do Instituto Politécnico do Porto e da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Durante o debate, em que Filipa Lã mostrará imagens interessantes, a investigadora desenvolverá as seguintes ideias: «Como o sistema endócrino feminino é mais complexo do que o masculino, especial atenção é aqui prestada às variações dos esteróides sexuais femininos durante o ciclo menstrual, a menopausa e os efeitos do uso de certos medicamentos contendo
esteróides sexuais sintéticos. É importante ter conhecimento deste fenómeno e suas causas - efeitos, não só porque a voz é a “impressão digital” da emotividade, personalidade e sexualidade individuais, como também é o principal instrumento de comunicação. Assim sendo, pequenas alterações vocais podem vir a ter consequências nefastas na qualidade de vida de uma mulher, especialmente das que dependem profissionalmente da sua voz».

16 de junho de 2007

Água de Vidago

Anúncio publicado na revista portuguesa Panorama em 1954.

A Água de Vidago deixou já cair da sua imagem este azul. Esta água mineral é agora apresentada em garrafas verdes, como eu sempre a conheci, ou com rótulos e tampas de diversas cores, quando lhe acrescentam sabores. Mas com este azul, quiçá talvez até o Capitão Haddok apreciasse um copo de Água de Vidago.

10 de junho de 2007

Creio nas árvores que têm raízes mergulhadas

Foto de Alberto Guimarães

Creio nas árvores que têm raízes mergulhadas
Num vasto seio de sono e de silêncio
Donde se arrancaram como um voo

Creio nas árvores que estão junto dos rios
Dando sombra aos pastores e às águas
Creio nas palavras ditas debaixo dos seus ramos
Creio na ninfa presa nos seus troncos.

Sophia de Mello Breyner Andresen