29 de junho de 2007

A cidade é muito grande


Ontem, no final do da tarde, fotografei esta casa. À sua volta outras tinham sido abatidas por uma sanha com forma de bulldozer. Talvez ela já não exista também.Entretanto ali se mantinha, irradiando um silêncio instigante e perturbante.
À noite, assim teria que ser, ouvi num disco antigo de Francis Hime esta canção, o blue certo para acompanhar a imagem.


As telhas já estão pesando
Sobre esta casa cansada
Em silêncio ela espera
A hora de ser julgada.
Avenidas se debruçam
Sobre a casa condenada
A casa é muito grande
Uma casa não é nada.
Uma casa é só o rosto
De um sorriso de criança
De uma noite de agonia
De um dia de esperança
De um vazio de ternura
Que nem chega a ser lembrança.

Demolição, Francis Hime / Carlos Queiroz Telles








23 de junho de 2007

Maria Rita

Raúl Indipwo e Milo MacMahon formaram o Duo Ouro Negro no ano de 1956 em Angola. Já com base em Lisboa, desenvolveram até ao falecimento de Milo em 1985 um trabalho prospectivo e pioneiro em Portugal com a música africana que encaravam com rigor, respeito e inventiva. Este caminho foi percorrido ainda por Raúl até ao seu recente desaparecimento. Tenho para mim que a música do Duo Ouro Negro, apesar de ter obtido assinalável sucesso em Portugal e no exterior, sempre foi encarada em alguns meios com nefastos preconceitos de vária ordem. Talvez por isso, discos excelentes como Africaníssimo ou Blackground não são ainda devidamente reconhecidos em todo o seu valor.
Trago aqui hoje o Duo Ouro Negro, porque uma das canções pop que eles mesclavam e intercalavam com a sua abordagem à música africana, transluz muito do ambiente e do espírito do S. João no Porto: Maria Rita.
Diz-me o amigo Décio do Ó, que anima o excelente blog http://duoouronegro.blogspot.com/, e que me forneceu gentilmente a imagem da capa do disco, que Maria Rita é um lançamento de 1969.
Hesitei em colocar neste post a capa, que me parece pouco feliz. Faço-o, porque ela é um testemunho de que o Duo Ouro Negro nem sempre viu o seu trabalho ser veiculado como merecia.
E aqui fica a letra de Maria Rita:

Foi um dia nas Fontainhas
Que a vi falando com umas amigas
Atirei-lhe beijos, elas riram das gracinhas
São coisas próprias das raparigas
E eu voltei, todos os dias a procurei
E soube que ela se chamava Rita
Foi a moça mais bacana que encontrei
E tinha os cabelos presos com uma fita

Maria Rita, Maria Rita
Eu pergunto à multidão, mas ninguém a viu passar
Maria Rita, Maria Rita
Dou uma vela a S. João se a voltar a encontrar

Quando chegou a madrugada
Ninguém sabia de nada
E eu voltei tão triste, tão triste
Que se ela soubesse voltava para me abraçar

Era noite de S. João
Toda a cidade estava iluminada
E toda a gente vinha em folia, em turbilhão
E nessa gente vinha a minha amada
E trazia a amarrar o cabelo negro
A mesma fita da cor do céu
Com a mão atirou-me um beijo
E entre a multidão desapareceu

Manjericos

A Galena abre a janela, no caso sobre o Mercado do Bolhão, para a imprescendível fragância dos manjericos.
Bom S. João!

21 de junho de 2007

Verão



Verão, Giuseppe Arcimboldo, 1573.

19 de junho de 2007

O que é que os esteróides sexuais têm a ver com a voz e o canto?


Porque a Galena também tem um pendor informativo, repasso o texto de um e-mail que me chegou a divulgar o que poderá ser um cativante evento, a anteceder a vigília da noite de S. João. Reproduzo-o, mesmo achando que «music medicine», se não tem, deveria ter forma de expressar em Português.

A «music medicine» está para a música como a medicina desportiva está para o desporto. Filipa Lã, 32 anos, investigadora da Universidade de Aveiro (e Faculdade de Medicina da Universidade do Porto) e soprano, vai falar da interferência dos esteróides sexuais na voz e no canto. E vai também cantar poemas de António Botto acompanhada pelo pianista Francisco Monteiro! Venha participar no debate e traga outro amigo também!

É no sábado, véspera de S. João, às 16h30, na FNAC do NorteShopping, no Porto (Matosinhos). A sessão termina com a actuação do grupo de música tradicional portuguesa «Chamaste-m'ó», que começou a carreira em 1995 nas «Noites da Sociologia» da Universidade do Porto. Às 17 horas serão servidos chá verde e scones. A sessão é organizada pelo Ciência Hoje e pelo Fórum Internacional de Investigadores Portugueses (FIIP).

A voz é um alvo hormonal. Os Castrati (castrados) são um exemplo histórico de como variações nas concentrações de hormonas esteróides sexuais podem interferir com a qualidade vocal de um indivíduo. É também disto que nos vai falar Filipa Lã, bióloga de formação e soprano, e que está a fazer o seu pos-doutoramento na Universidade de Aveiro, onde continua a desenvolver investigação sobre Performance Vocal. Filipa vai falar e cantar temas de M. Sousa Santos sobre poemas de António Botto, acompanhada do pianista Francisco Monteiro, professor na ESE do Instituto Politécnico do Porto e da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Durante o debate, em que Filipa Lã mostrará imagens interessantes, a investigadora desenvolverá as seguintes ideias: «Como o sistema endócrino feminino é mais complexo do que o masculino, especial atenção é aqui prestada às variações dos esteróides sexuais femininos durante o ciclo menstrual, a menopausa e os efeitos do uso de certos medicamentos contendo
esteróides sexuais sintéticos. É importante ter conhecimento deste fenómeno e suas causas - efeitos, não só porque a voz é a “impressão digital” da emotividade, personalidade e sexualidade individuais, como também é o principal instrumento de comunicação. Assim sendo, pequenas alterações vocais podem vir a ter consequências nefastas na qualidade de vida de uma mulher, especialmente das que dependem profissionalmente da sua voz».

16 de junho de 2007

Água de Vidago

Anúncio publicado na revista portuguesa Panorama em 1954.

A Água de Vidago deixou já cair da sua imagem este azul. Esta água mineral é agora apresentada em garrafas verdes, como eu sempre a conheci, ou com rótulos e tampas de diversas cores, quando lhe acrescentam sabores. Mas com este azul, quiçá talvez até o Capitão Haddok apreciasse um copo de Água de Vidago.

10 de junho de 2007

Creio nas árvores que têm raízes mergulhadas

Foto de Alberto Guimarães

Creio nas árvores que têm raízes mergulhadas
Num vasto seio de sono e de silêncio
Donde se arrancaram como um voo

Creio nas árvores que estão junto dos rios
Dando sombra aos pastores e às águas
Creio nas palavras ditas debaixo dos seus ramos
Creio na ninfa presa nos seus troncos.

Sophia de Mello Breyner Andresen

24 de maio de 2007

Maysa

MAÍSA

Um dia pensei um poema para Maísa
“Maísa não é isso
Maísa não é aquilo
Como é então que Maísa me comove me sacode me buleversa me hipnotiza?

Muito simplesmente
Maísa não é isso mas Maísa tem aquilo
Maísa não é aquilo mas Maísa tem isto
Os olhos de Maísa são dois não sei quê dois não sei como diga dois Oceanos Não-Pacíficos


A boca de Maísa é isto isso e aquilo
Quem fala mais em Maísa a boca ou os olhos?
Os olhos e a boca de Maísa se entendem os olhos dizem uma coisa e a boca de Maísa se condói se contrai se contorce como a ostra viva em que se pingou uma gota de limão
A boca de Maísa escanteia e os olhos de Maísa ficam sérios
meu Deus como os olhos de Maísa podem ser sérios e como a boca de Maísa pode ser amarga!
Boca da noite (mas de repente alvorece num sorriso infantil inefável)”

Cacei imagens delirantes
Maísa podia não gostar
Cassei o poema.

Maísa reapareceu depois de longa ausência
Maísa emagreceu
Está melhor assim?

Nem melhor nem pior
Maísa não é um corpo
Maísa são dois olhos e uma boca
Essa é a Maísa da televisão
A Maísa que canta
A outra eu não conheço não
Não conheço de todo
Mas mando um beijo para ela.

Manuel Bandeira in “Estrela da Vida Inteira”, 3ª edição, Livraria José Olympio Editora, 1973.

Este post poderia ter surgido a todo o momento mas foi sugerido hoje pelo facto de ter encontrado um vídeo com Maysa no Youtube. Link:http://www.youtube.com/watch?v=_Ia107Ds01o
Nota: respeitei na transcrição do poema o «Maísa» grafado sem y.


22 de maio de 2007

Livros


Para angariar fundos para a sua biblioteca, o município de Viena lançou uma linha erótica. Por 39 cêntimos de euro por minuto, uma actriz austríaca lê literatura erótica clássica e moderna do outro lado do fio. Anne Bennent debita passagens quentes do fundo «Secreta» da biblioteca, extraídos de obras dos séculos XVIII, XIX e XX. «Recebemos 158 chamadas», informa Suzie Wong, da Wienbibliothek. «Ao todo, foram 660 minutos ao telefone».

Der Spiegel, Hamburgo, transcrito pelo Courrier Internacional de 18/05/07.

Ciente da importância das bibliotecas municipais, e pensando que alguma poderá não dispor de um fundo «Secreta», informo que posso ceder a título de beneficência, alguns exemplares da minha biblioteca pessoal, como estes, por exemplo, de forma a possibilitar a criação de linhas específicas .

19 de maio de 2007

Subway spectrum


Fotos de Alberto Guimarães

Porto, Campo 24 de Agosto. Velhos vestígios da urbe, sedimentos com centenas de anos, permitem fantásticas visões na estação de metro.

18 de maio de 2007

É isso!


É isso! Vou pegar no meu transistor (decididamente mp3 não é chic) e vou para a praia. A vida é bela.

7 de maio de 2007

Pausa que refresca


Hitler ainda resistia na Alemanha, os Japoneses estavam bravos no Pacífico mas a II Guerra Mundial parecia já decidida. Isso transparecia nas propagandas publicadas nas Seleções do Reader´s Digest de Março de 1945. A publicidade passava uma clara mensagem de triunfalismo dos Aliados: “Sim, depois da Vitória, tenham em vista Philco para primazia em rádio”. Assinalava-se também a percepção da importância daquele dias: “ As gerações do futuro vão referir-se aos tempos atribulados e tumultuosos de hoje como período culminante de toda a história”, escrevia-se num outro eloquente anúncio.
Antagonismos que dariam lugar à Guerra Fria não eram ainda previsíveis. Os tempos eram então de distender, de fazer uma pausa.
Fazer uma pausa afinal não é uma sugestão originalmente kit-katiana. A Coca-Cola já tal aventava neste sedutor anúncio publicado no referido número das Seleções.
Ontem ao ver na TV a final de 2h25 do Estoril Open entre os tenistas Novak Djokovic e Richard Gasquet, também bebi Coca-Cola.