28 de outubro de 2006

Rogério Duprat



Entre os anos de 1967 e 1968, a explosão do Tropicalismo no Brasil teve o mérito de questionar e ao mesmo tempo conciliar o “bom” e o “mau” gosto.
Conciliar, incorporar eram lemas, não-lemas, do Tropicalismo.
O maestro Rogério Duprat teve um papel importante no movimento, sendo o responsável pelos arranjos e regência do álbum Tropicália ou Panis et Circenses.
Rogério Duprat faleceu esta semana em São Paulo.
É a capa de Tropicália que aqui se reproduz. Nela aparecem não só os que assinam o disco, Caetano, Gil, Os Mutantes, Gal Nara Leão e Rogério Duprat (com um penico na mão), como também Tom Zé e os poetas Torquato Neto e José Carlos Capinam.

27 de outubro de 2006

Águas turvas




…Eu não gosto do bom gosto

Eu não gosto do bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Senhas, Adriana Calcanhotto

Temo que um destes dias possa surgir um politicamente correcto volume com título tipo, Manual do Bom Gosto, um guia para acolhimento de espectáculos em teatros municipais. Surgiu-me o receio ao ler esta semana no JN as declarações de um «ex-ocupa» do Rivoli. Francisco Alves depois de ter sido recebido com outros manifestantes pela ministra da Cultura, disse ao relatar o encontro: “ A ministra mostrou-se empenhada em definir o conceito de serviço público, reconhecendo que não faz sentido uma rede de teatros para depois apresentar, por exemplo, música pimba”.
Atente-se à expressão «por exemplo». Parece que já foi destrinçado o tipo de espectáculos, além da música pimba, a incluir num qualquer índex.
Que a ministra queira, ainda citada pelo encenador, “produzir documentação sobre a definição de serviço público e estabelecer regras claras para a Rede de Teatros Municipais financiados com dinheiros públicos”, parece-me pertinente e a ser feito com desembaraço porquanto tardiamente. Mas discriminar e, para já verbalmente decretar ao ostracismo, géneros artísticos que a ministra e alguns intelectuais confinam como menores, é um exercício perigoso e pouco democrático.
Que direito existirá de vedar o palco de um teatro municipal a quem com empenho, seriedade e rigor faça canções de acordes e letras simples que agradam a públicos, que sensibilizam pessoas? A meu ver nenhum.
Entende-se a precaução da ministra, mas estamos perante um discurso classista que demonstra que do outro lado de um rio pardacento, podem também estar águas turvas.

…Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
Mas o que eu não gosto é do bom gosto…

23 de outubro de 2006

Intervalo para publicidade.

19 de outubro de 2006

Rivoli.

De madrugada, com a intervenção da PSP, tudo voltou ao normal no Rivoli. Ninguém mais se inquietará com algo de exótico a acontecer na Praça D. João I.
A habitualmente generosa população do Porto, fez-me lembrar neste caso, a canção que diz quem passa nem liga, já vai trabalhar. Em geral, os portuenses não estiveram solidários com os «ocupantes» do Rivoli. Mas nos dias que correm os portuenses pouco abandonam os seus condomínios fechados onde se barricam, sabe-se lá porquê, os guetos que são os bairros sociais e os subúrbios tristes e desmotivantes onde se acomodam numa diáspora.
Foi uma minoria, que até não é mesmo imensa, quem decidiu intervir/agir artisticamente e civicamente em torno do Rivoli. Com criatividade e determinação. Afinal nem tudo está perdido.
Como notava João Fernandes do Museu de Serralves hoje no JN, em 1978 artistas também ocuparam o MOMA em Nova Yorque, só que a administração não lhes cortou a água, nem a luz, nem o resto. Dialogou com eles e daí o Museu saiu valorizado. João Fernandes ponderava que a transgressão, desde que não coloque em causa a ética humana, é uma atitude respeitável.
No Rivoli manifestou-se não só uma resistente capacidade de indignação como se levou a arte onde ela deve ir: até às consequências possíveis. Não se espera que toda a gente entenda isso, muito menos o executivo da Câmara do Porto.
No Rivoli tudo voltou ao normal mas nada será como antes.

17 de outubro de 2006

Como nossos pais.

Como nossos pais
(Belchior in Falso Brilhante, álbum de Elis Regina, 1976)

Não quero lhe falar, meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa

Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantado como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração

Já faz tempo eu vi você na rua cabelo ao vento gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais

Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não se enganam, não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que tou por fora ou então que tou inventando
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem

Hoje eu sei que quem deu me deu a idéia de uma nova consciência e juventude
Está em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

14 de outubro de 2006

Valsa Negra


A epígrafe de Valsa Negra inscreve uma citação de Catulo: o ódio é indistinguível do amor. Depois entra-se num universo tenso protagonizado por um maestro que se deixa obcecar pelos ciúmes da sua namorada trinta anos mais nova. Ficam-nos rastros diversos. Ali encontramos Gustav Mahler, São Paulo, o conflito Israelo- Árabe e, principalmente, personagens envoltos na dor e na crueldade geradas por perturbações afectivas .
Viciado na escrita ritmada e fluida dos livros de Patrícia Melo, gosto especialmente de Valsa Negra .
A capa da edição portuguesa (Campo da Literatura) é da autoria de Elsa Navarro e José Saraiva que conseguiram algo mais que um adorno para o objecto suporte do romance. Ouve-se a Valsa da Dor de Villa-Lobos nesta capa.

3 de outubro de 2006

Livro.


Acabou de imprimir-se em 5 de Abril de 1974. O arranjo gráfico é de João B.. João Botelho, I believe. Já não sei quando nem onde o comprei. Sei que tem um leve cheiro a mofo, não absolutamente desagradável. E uma capa que não resisti a digitalizar para mostrar (repartir) aqui.

23 de setembro de 2006

Clérigos ao rubro.


O esplendor barroco e a imponência da Torre e Igreja dos Clérigos, estão agora envoltos por uma tela gigante onde predomina o vermelho e se faz publicidade à cerveja Sagres Bohemia. Assim, o sugerir da degustação de uma cerveja, oculta os trabalhos que estão a decorrer e que visam conservação daquele conjunto arquitectónico. Pelos media ficou-se a saber que a Sociedade Central de Cervejas e Bebidas estabeleceu com a Agência para Modernização do Porto, ao abrigo do Programa "Porto com Pinta" um protocolo de mecenato que permitiu erguer a tela gigante que publicita a cerveja. Isto com a anuência da hierarquia da Igreja, e o aval do próprio Bispo do Porto, Senhor Dom Armindo Lopes Coelho.
Pagaram os detentores da marca de cerveja 25.000 Euros. Negócios.
Igreja e Torre (esta até à altura do relógio) estarão envolvidas, ainda mais alguns meses pela exaltação do hedonismo. Oportunidade aberta para os GNR fazerem um remake do clip de Vídeo-Maria protagonizado desta vez por uma espumejante ruiva. Rui Reininho desafiando a senescência em plena acção junto à tela vermelha a entrar, não numa loja de conveniência mas sim na Igreja dos Clérigos. Não para assaltar a caixa de esmolas, antes para comprar Sagres Bohemia. Sequer seria um vídeo inteiramente de baixo teor moral pois o hipotético cenário, como ditam as leis, exibe também na tela vermelha a indispensável frase beba com moderação. Frase que se supõe imposta pelo código de publicidade e não por leituras bíblicas.
Estamos de facto perante um verdadeiro happenig pós-pós-moderno. Os janelões, os ornatos, enfim, praticamente todo o barroco luxuriante dos Clérigos coberto por um sintético rubro, como constituindo uma justaposição que nos transporta para uma realidade paralela.
Argh… vou beber uma Super-Bock

27 de julho de 2006